Texto/Opinião: Bruno Rodrigues (ACC)
Um colaborador do blogue do ACC na ilha do Faial, fez-nos chegar alguns acontecimentos interessantes relativamente ao Projecto Integrado de Requalificação e Reordenamento da Frente Marítima da Cidade da Horta (RECAPE), sob a alçada da Administração dos Portos do Triângulo e do Grupo Ocidental S.A. (APTO, S.A.) e da tutela (Secretaria Regional da Economia), um projecto aliás que já abordamos aqui no blogue em Junho. Vou aprofundar um pouco esses dados que me foram dados a conhecer.

Aquando da recente escala do navio Oriana da P&O Cruises na Horta, o jornal Faialense "INCENTIVO", em manchete do dia 20 de Agosto de 2010, anunciava que “o calado de 11,50 metros do Oriana inviabiliza a sua entrada no porto da Horta”. Sendo um navio já abordado aqui no blogue em 2 ocasiões, não é difícil perceber a incorrecção da manchete, uma vez que o calado do navio em causa é de 7,9 metros. Em relação à sua "não entrada" no porto comercial da Horta, torna-se difícil compreender como o referido jornal tencionava ver um navio de 260 metros de comprimento acostado num cais de 190 metros de comprimentos e 7,5 metros de profundidade (cais Alfa).
Foto: Fernando Medeiros - Obras do novo Cais Norte - Horta - Setembro 2010
"Deve, no entanto, notar-se que a obra de Requalificação e Reordenamento da Frente Marítima da Cidade da Horta (1.ª Fase), cuja empreitada está neste momento em execução, com os complementos que lhe irão ser introduzidos, na sequência da Resolução do Conselho do Governo Regional n.º 90/2010, de 15 de Junho – nomeadamente quanto ao “rebaixamento da cota de fundação para - 8.00 ZH do Terminal Marítimo da Cidade da Horta” –, permitirá a atracação de navios com características semelhantes ao navio que a 19 de Agosto de 2010 nos visitou, uma vez que disporá de um molhe-cais de 264 metros úteis de acostagem (300 metros de comprimento de plataforma, com 36 metros de ocupação por uma rampa para operações ro-ro, roll-on/roll-off)."
Foto: Fernando Medeiros - Obras do novo Cais Norte - Horta - Setembro 2010
São de saudar alterações que viabilizem a utilização do novo Cais Norte da Horta por alguns navios de cruzeiro. Entre o projecto inicial (profundidades na ordem dos -12 metros) e o projecto final (profundidades na ordem dos -6 metros) o novo Cais Norte ficará então com uma profundidade na ordem dos -8 metros. Daí a afirmar que esses -8 metros permitirão a atracagem do Oriana (exemplo utilizado pela APTO, S.A.) no Cais Norte (mais uma vez, falamos de um navio com 7,9 metros de calado), é uma imprudência e um grande risco. Nenhum comandante correrá certamente esse risco, com tão pouca distância ao fundo. Com muita pena, estamos a assistir a mais um "penso rápido" numa obra de grande importância.
Foto gentilmente cedida por Luís Correia, Horta.
Planta de obra - Placard metálico - Maio 2010 - Aumentar
No entanto, num exercício de bola de cristal, das 16 escalas actualmente previstas para 2011 na cidade da Horta, caso o Cais Norte estivesse pronto estaria habilitado a receber 12 dessas escalas. Qualquer dos navios em causa não teria limitações de atracagem ao nível do comprimento do cais. Quanto à profundidade, estou a considerar uma margem de segurança entre os 0,8 e 1 metros (diferença do calado do navio com a profundidade do cais), que é a prática normal em comandantes de navios de cruzeiro. Assim sendo, navios como o Discovery, Princess Danae e Athena não poderiam atracar no novo cais e teriam ancorar fora do porto.
12-03-2011 Ocean Countess (Cruise & Maritime Voyages) - Calado: 5,8 metros
17-04-2011 Discovery (Voyages of Discovery) - Calado: 7,5 metros
18-04-2011 Sea Cloud II (Noble Caledonia) - Calado: 5,3 metros
23-04-2011 Polar Star (Polar Star Expeditions) - Calado: 5,6 metros
24-04-2011 Princess Danae (Classic International Cruises) - Calado: 7,6 metros
25-04-2011 Sea Cloud II (Sea Cloud Cruises) - Calado: 5,3 metros
09-05-2011 The World (ResidenSea) - Calado: 6,9 metros
10-05-2011 Deutschland (Peter Deilmann Cruises) - Calado: 5,8 metros
18-05-2011 Clipper Odyssey (Zegrahm and Eco Expeditions) - Calado: 4,3 metros
20-05-2011 Kristina Katarina (Kristina Cruises) - Calado: 5,3 metros
23-05-2011 Kristina Katarina (Kristina Cruises) - Calado: 5,3 metros
24&25-05-2011 Clipper Odyssey (Noble Caledonia) - Calado: 4,3 metros
05-09-2011 Princess Danae (Classic International Cruises) - Calado: 7,6 metros
19-09-2011 Athena (Classic International Cruises) - Calado: 7,6 metros
16&17-10-2011 Bremen (Hapag-Lloyd Cruises) - Calado: 4,6 metros
03-10-2011 Delphin Voyager (Delphin Kreuzfahrten) - Calado: 6,5 metros
Repito: é de saudar o rebaixamento da cota de fundação do novo Cais Norte da Horta para os -8 metros. No entanto, olhando para o projecto inicial, de um Cais Norte com profundidade de -12 metros, o que se assiste actualmente sabe a pouco. Seria muito bom para o Faial e para os Açores em geral ter um Cais Norte com -10 metros de profundidade, tendo em conta os navios de cruzeiro da actualidade. Com dois terminais de cruzeiros com qualidade nos Açores, valorizando sobremaneira o porto da Horta como porto de escala de navios de cruzeiros, a ideia de itinerários de cruzeiros envolvendo os Açores e outras regiões (Madeira, Canárias, Portugal Continental, Norte de África, Norte da Europa) teria pernas para andar. Sem oferta, não há procura, num mercado em crescimento, sedento de novidades face à massificação dos destinos nas Caraíbas e no Mediterrâneo. Vivemos num tempo de crise, é certo, mas se os investimentos são feitos, que o sejam de forma pensada e com visão de futuro, não apenas para o presente.
A título de curiosidade, com uma profundidade de -12 metros até o Queen Mary 2 poderia fazer o que nunca poderá fazer nas Portas do Mar em Ponta Delgada: atracar. Dos grandes navios de cruzeiro, este é o que tem maior calado actualmente.
Referências: