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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Memórias dos Açores: Batalha Naval no Mar dos Açores

Texto Integral: Maresias, I Volume, Goulart Quaresma, 1999 (páginas 145 a 147)

Navio de dois canos atingido e... submarino ao fundo


Pela Union Castle Mail Steam Ship Co. Ltd. de Londres foram encomendados, em 1928, dois navios que foram baptizados de "Durban Castle" e "Llangibby Castle". Este último era um paquete de dois canos com 11951 toneladas de arqueação bruta, 147,97 metros de comprimento, 20,17 metros de boca e 10,97 metros de calado.
Tinham capacidade para 250 passageiros em 1ª. classe e 200 em classe única. Eram propulsionados por dois motores Diesel de 8500 cavalos-vapor que impulsionavam duas hélices de 3 pás conferindo-lhes a velocidade de 16 nós.


Com a entrada do Reino Unido na II Guerra Mundial o "Llangibby Castle" foi requisitado pelo Governo Britânico para servir como transporte de tropas.
Em Janeiro de 1942 o referido navio navegava, integrado num comboio, com destino a Singapura via África do Sul transportando 1400 militares britânicos. Pouco passava das 8 horas na manhã do dia 16 de Janeiro quando foi atingido por um torpedo do submarino alemão U-402 que era comandado por Siegfried Forstner na posição 46º 04' N e 19º 06' W causando a morte a 25 militares destruindo parte da popa e o leme.

 
Silhueta de Submarino Alemão tipo UXXI contemporâneo da II Guerra Mundial
Fonte: WW2 Photo

Por sorte as duas hélices continuaram operacionais. Sendo obrigado a abandonar o comboio o Comandante Bayer fez rumo ao porto da Horta manobrando com as duas hélices. Pouco passava das 11 horas na manhã do mesmo dia quando é novamente atacado, desta feita por um avião alemão "Condor" que, ferindo um militar e o contramestre com alguma gravidade, ainda destruiu dois salva-vidas. Feito, no alto mar, o funeral das vítimas o navio continuou a navegar com destino à Horta. A 19 de Janeiro atingiria a ilha do Faial onde entrou cerca das 11h30 tendo o contramestre George Readen sido transportado para o Hospital Walter Bensaúde no sentido de receber tratamento.

Dos escombros da popa do navio foram retirados 3 cadáveres que foram transferidos, em caixões selados, para bordo do cargueiro britânico "Silivri" que se encontrava a reabastecer de carvão no porto da Horta. Fora do limite de 3 milhas do Faial, foi, a bordo do referido cargueiro, feita uma cerimónia fúnebre tendo assistido representantes da tripulação do paquete, o Comandante do Porto da Horta A. Belo que se fez representar pelo Patrão-Mor Gabriel Gonçalves, o Piloto-Mor Herculando da Silveira e o Piloto João Faria.
Feita a reparação do navio com grande quantidade de cimento e madeira, passados 21 dias, a 2 de Fevereiro de 1942 o paquete zarpou da Horta comboiado pelo rebocador "Thames", que na altura usava o pavilhão britânico, e por 3 destroyers (nota: HMS Croome, HMS Westcott e HMS Exmoor) que aguardavam ao largo do Faial.

 
O "Llangibby Castle" fundeado na Horta onde se vê os estragos causados pelo torpedeamento. 

Calcula-se que os alemães tenham sido alertados para a saída do navio tendo por consequência de novo o paquete sido atacado por submarino germânico.
Após o ataque, sem sucesso, ao "Llangibby Castle" um submarino do Reich refugiou-se na baía da Candelária (Ilha do Pico). Detectado pelos destroyers britânicos, após rápido combate, o submarino foi afundado tendo os aliados recolhido alguns tripulantes do famigerado navio. Um oficial alemão foi recolhido no lugar do Guindaste por João Francisco da Rosa Júnior e Manuel Santos, o que lhes valeu terem sido agraciados pelo Instituto de Socorros a Náufragos com o Diploma de Medalha de Cobre onde consta: "Por no dia 2 de Fevereiro de 1942, no local do Guindaste, freguesia da Candelária (Ilha do Pico) haver concorrido para o salvamento de um oficial alemão náufrago de um submarino alemão".

 
Diploma atribuído a João Francisco da Rosa Júnior

Em 1947 o "Llangibby Castle" voltou a usar as cores do armador "Union Castle Steam Ship", até que a 18 de Janeiro de 1954 o paquete zarpou de Southampton para Newport a fim de ser desmantelado.
O submarino alemão da classe UVII jaz no fundo do mar do Pico.


Glossário
"U" - Sigla usada nos submarinos germânicos, seguida do número de série, correspondente a UNTERSEEBOOT que significa "submarino". O U-1 entrou ao serviço em Dezembro de 1906.
Submarino - Navio capaz de navegar submerso com larga autonomia. A partir de 1943 quando a Alemanha invadiu a Holanda equipou os seus submarinos com um aparelho denominado "Snorkel" que accionado telescopicamente permitia fazer a alimentação de ar para que os motores Diesel tivessem maior autonomia. A partir daí os alemães criaram a classe UXXI.
Submergível - O mesmo que submersível.
Submersível - Navio capaz de navegar submerso por período limitado de tempo e de profundidade. Em 1800 Fulton construiu um submersível, sem sucesso, que baptizou de "Nautilus". Considera-se o primeiro submersível o militar francês "Narval" de 1898.


Referências

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memórias dos Açores: A Última Viagem do "Slavonia"

Texto Integral e Fotos: Maresias, I Volume, Goulart Quaresma, 1999 (páginas 101 a 105)



Nos estaleiros britânicos "James Laing" em Sunderland foi lançado ao mar a 15 de Novembro de 1902, um navio baptizado de "Yamuna" que tinha como armador a British Indian Steam Navigation.
Este navio tinha 160 metros de comprimentos, 10.606 toneladas de arqueação e era propulsionado por duas hélices que lhe conferiam uma velocidade média de 13 milhas/hora.

A sua actividade como navio misto destinava-se à carreira da Grã-Bretanha com a Índia. Posteriormente adquirido pela famosa Cunard voltou ao estaleiro construtor no sentido de ser remodelado e aumentada a sua lotação para 70 passageiros em 1ª classe (anteriormente 40) e 800 em 2ª e 3ª classes. Rebaptizado de Slavonia passou a fazer cruzeiros de Inverno no Mediterrâneo e no Verão transportava emigrantes europeus para os Estados Unidos.

Plano longitudinal do Slavonia

Após uma destas viagens zarpou de New York a 3 de Junho de 1909 com 225 tripulantes, 222 passageiros de 3ª classe e 100 de 1ª o que totalizava 597 pessoas embarcadas. O navio era comandado pelo tenente naval na reserva Arthur George Dunning e destinava-se ao porto italiano de Trieste.

Na sua rota com destino ao referido porto era suposto passar a sul do Grupo Ocidental do Arquipélago Açoriano. A pedido de diversos passageiros foi solicitado ao comandante que alterasse o rumo para que observassem a beleza das nossas ilhas. Provavelmente devido a caimento não estimado e a nevoeiro que se fazia sentir na altura, o navio cerca das 2:30 horas da madrugada do dia 10 de Junho de 1909 acabaria por encalhar próximo da povoação do Lajedo (Ilha das Flores), onde se encontra um ilhéu negro e mais alto que os restantes conhecido por Cartário (59 metros) e, logo a seguir, a ponta das Cantarinhas, que limita pelo sul uma baía bem pronunciada, de vertentes escarpadas muito arborizadas e sem bons fundos.

 Local assinalado a vermelho

Lançado o S.O.S., foi captado pelo paquete germânico "Prinzess Irene" e pelo "Batavia" da empresa Hamburg-Amerika Linie, que rapidamente se dirigiram ao local do naufrágio. Com a ajuda das suas próprias baleeiras e das dos outros navios entretanto chegados ao local do acidente, além de um cabo de vaivém, foi possível salvar os passageiros e tripulantes. Entretanto partiu de Ponta Delgada o rebocador Condor no sentido de safar o navio, mas a sua tentativa foi inglória. O Slavonia estava irremediavelmente perdido e perante tal situação o comandante Dunning tentou suicidar-se, mas acabou impedido pelo seu telegrafista. Conseguiram salvar alguma parte da carga que era constituída por café e cobre. Ainda hoje na ilha das Flores e noutras partes do Arquipélago Açoriano existem peças de mobiliário e utensílios do referido navio.

 O Slavonia encalhado e já com a popa submersa

A 16 de Junho a companhia seguradora Lloyd's declarou a perda total do navio, embora o salvadego "Ranger", propriedade da Liverpool & Glasgow Salvage Association, enviado pela referida seguradora só tivesse chegado às Flores a 20 do mesmo mês.

A falta de faróis nos Açores, na altura, era gritante. Após o acidente chegou ao Arquipélago o navio "Berrio" comandado pelo então capitão de mar-e-guerra Schultz Xavier que vinhas inspeccionar a construção dos faróis de Lajes das Flores, Rosais e Topo em São Jorge, Ponta da Barca na Graciosa. Enfim... um atraso que pode ter causado a perda deste grande navio.

 Farol da Ponta das Lajes, cuja construção só terminaria em Setembro de 1910

Os tripulantes e passageiros do Slavonia foram embarcados no navio "Batávia" que rumou a Nápoles onde os desembarcou.

Junto à costa do Lajedo ainda existem no fundo destroços do desafortunado Slavonia.


Outras Referências